Herança do pai e fé: benzedeira mantém o ofício por décadas

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São Lourenço do Oeste (SC) | 27/01/2026 | 16:16

Autor e foto: Angela Maria Curioletti/Portal Minutta

Ela mantém vivo um repertório de benzimentos. Reumatismo, vermes, míngua e quebrante são apenas algumas das curas que muitas pessoas procuram em Lorena Vanin de Almeida, 72 anos, professora aposentada que herdou do pai José Vanin o ofício de benzedeira.

Lorena mora em São Lourenço do Oeste (SC). Casada com Antônio Correia de Almeida, tem quatro filhos, sete netos e uma bisneta. “O que mais importa é ter fé. Acreditar na pessoa que vai fazer o benzimento e acreditar na força da própria oração”, ela.

Herança do pai

Lorena descreve o porque decidiu seguir o ofício do pai. “Eu cresci vendo ele curar as pessoas e aquilo foi me cativando. E aí, depois, quando ele já não podia mais, ele me passou e eu dei continuidade, até que Deus me deu força e eu consegui benzer”. São mais de três décadas atendendo casos variados, seja presencialmente ou com apenas o nome e a idade da pessoa.

Em algumas rezas existem objetos e práticas tradicionais. Para os trabalhos contra “amarelão”, por exemplo, além do benzimento com nome e idade, ela ensina um chá de três ervas: raiz de salsa; raiz de picão e folha de lima. Já no caso do cobreiro, explicou, emprega-se aliança e água benta como parte do rito.

Histórias que marcam

As histórias de cura marcaram sua trajetória. Ela relata situações em que pacientes evitaram procedimentos médicos, como uma mulher que tinha cirurgia marcada para hérnia de disco e, após o benzimento, não precisou ser operada. Tem ainda o caso de uma jovem de 18 anos com reumatismo grave, cuja melhora emocionou a benzedeira, ou a de um homem que, caído no chão e gritando de dor, foi aliviado após o atendimento.

Sobre a remuneração, Lorena reafirma a prática do benzimento não envolve dinheiro. “O certo do benzimento é não cobrar”, embora ela aceite presentes ou donativos espontâneos como forma de agradecimento.

A mãe era cética

Mesmo vendo o marido e a filha realizando curas através da reza, a mãe de Lorena não acreditava nos benzimentos. “Ela via as curas que o pai fazia, mas ela não acreditava. Depois que o pai faleceu, quando eu tinha ficado com o benzimento, às vezes ela estava com as mãozinhas tortas. Ela vinha lá em casa, que a gente morava pertinho, e me pedia pra benzer. Eu benzia, mas pouco adiantava, porque ela não acreditava.”

Numa família numerosa, com dez irmãos, Lorena e uma irmã são as únicas que seguiram no ofício. “Eu tentei passar para os meus filhos, mas ninguém quis.”

Hoje, Lorena teme pela descontinuidade da tradição: “Seria bom que a juventude se apegasse um pouco aos benzimentos para não deixar acabar. Porque, com o tempo, são poucas pessoas que ainda benzem. Quando nós formos, quem vai ficar?”, questiona.

A professora aposentada reforça que a eficácia do ritual depende não apenas do procedimento do benzedeiro, mas da fé da pessoa e do comprometimento com as rezas posteriors. “Tem que acreditar, tem que ter fé, tem que rezar com fé aquilo que tu vai pedir, porque não é só eu que vou pedir.”

Agradecimento

Ao encerrar a entrevista, Lorena deixa uma mensagem simples e direta: gratidão por ter recebido o dom do pai e o reconhecimento da família. “Com a graça de Deus, de Nossa Senhora Aparecida e do divino Espírito doando meu tempo e ajudando as pessoas que solicitam minhas orações.”