Informações: G1PR
Foto: Reprodução/G1
As duas filhas de Francisco Eliseu Deorneles, de 9 e 11 anos, precisam atravessar um rio a pé, todos os dias, para conseguir chegar ao ônibus que leva às escolas em que elas estudam. A família mora na comunidade Bom Retiro, na zona rural de Coronel Domingos Soares (PR), cidade com cerca de 4,5 mil habitantes.
O pai conta que a travessia tem que ser feita pela água, mesmo se o rio estiver mais cheio, devido ao fato de não haver nenhuma ponte ou outro acesso que ligue a residência ao ponto do transporte escolar.
Francisco e a esposa trabalham com agricultura familiar e também têm outro filho pequeno, que ainda não começou a ir para a escola. No caso das filhas, elas precisam atravessar o rio duas vezes por dia, de segunda a sexta-feira, tanto para chegar ao ponto de ônibus escolar, que fica a cerca de 600 metros de distância da residência, quanto para voltar para casa. Quando o rio está mais cheio, os pais precisam acompanhar as filhas e, nestes casos, fazem travessias quatro vezes por dia, entre idas e voltas. "As crianças têm que se molhar pra poderem ir até a escola. Uma delas já apresentou problemas de saúde devido a isso. Eu já fui até a prefeitura, mas até agora nada", diz o pai.
A comunidade onde a família mora é um assentamento reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desde os anos 1990. Na prática, um assentamento é um conjunto de unidades agrícolas, instaladas pelo Incra em um imóvel rural. Cada uma dessas unidades, chamada de parcelas ou lotes, é destinada a uma família de agricultor ou trabalhador rural considerada sem condições econômicas de adquirir um imóvel rural. A família beneficiada deve residir e explorar o lote, com o desenvolvimento de atividades produtivas diversas.
A família Deorneles mora no assentamento Bom Retiro do Butiá. Segundo dados atualizados no início de março de 2026 pelo Incra, a área tem capacidade para 73 famílias e abriga 59. O assentamento totaliza 1,7 mil m² de área.
No local, a família das crianças cria animais e produz alimentos para o próprio sustento — o que, segundo o pai das crianças, inviabiliza que eles morem em uma área urbana, por exemplo. Deorneles também ressalta que a dificuldade para acessar o transporte escolar ocorre desde a chegada da família ao local.
O g1 questionou o Incra se a falta de ponte na região foi considerada antes do reconhecimento do assentamento pelo Incra. O órgão informou que mandou equipe até o local em setembro de 2025, destacou que o lote da família aguarda análise de regularização e, sobre a questão estrutural, vai analisar a demanda.
Sobre a situação da família, a prefeitura disse que atualmente realiza uma "verificação técnica" para identificar a necessidade de intervenção no local, bem como para avaliar a viabilidade de possível obra de infraestrutura. Não há previsão de solução do problema.
"No momento, a situação encontra-se em fase de análise técnica e administrativa, com levantamento de informações acerca da titularidade da área, das condições de acesso existentes e de eventuais alternativas de deslocamento já disponíveis na localidade [...] Considerando que os estudos técnicos e jurídicos ainda estão em andamento, não há, neste momento, definição de prazo para eventual execução de obra."
A prefeitura também afirmou que acionou o Departamento de Educação para "avaliar as condições de deslocamento dos alunos, a fim de assegurar que o acesso à escola não seja prejudicado". Disse, também, que o Conselho Tutelar está envolvido no caso e apresentou alternativas aos pais das crianças.
"O Conselho Tutelar orientou os pais das crianças quanto à possibilidade de utilização de residência que possuem no perímetro urbano do município, especialmente diante do risco da travessia do rio pelas crianças e do elevado número de faltas escolares registradas. A administração municipal reafirma seu compromisso com a segurança dos estudantes e com a garantia do direito à educação, adotando as providências cabíveis dentro dos limites legais, técnicos e administrativos aplicáveis."





